Quem passa em frente à loja com fachada vermelha numa tranquila rua de Moema, bairro nobre da zona sul de São Paulo, não imagina o que é vendido lá dentro. Os manequins das vitrines remetem a uma loja de lingerie. Quando entra, a cliente encontra pela frente uma arara cheia de calcinhas e sutiãs de diferentes cores e tamanhos. A decoração, inspirada num cabaré dos anos 1930, empresta sofisticação e glamour para o lugar. O primeiro indício de que aquela não é uma loja de lingeries convencional surge numa prateleira cheia de gels, cremes e outros cosméticos eróticos. Se a cliente pergunta por acessórios ela é conduzida para uma sala de paredes escuras no fundo da loja. É lá que estão os vibradores, simuladores de sexo oral feminino e filmes pornô, entre outros brinquedos sexuais. A Constantine, no entanto, não é um sex shop. É uma butique erótica. “É mais sofisticada, discreta e oferece um atendimento diferenciado”, diz Luciana Keller, dona da loja.
A sofisticação da Constantine atrai um público diferente daquele que prefere apimentar a relação com produtos de um sex shop convencional. A cliente fiel são mulheres entre 35 e 45 anos, oriundas da classe A, com curso superior completo no CV, casadas ou num relacionamento estável. O tíquete médio de cada compra gira em torno de R$ 400. Duas vezes por mês, a butique oferece cursos no valor de até R$200 com assuntos que variam entre sexo na terceira idade, pompoarismo e massagem. Além de procurar por acessórios, cosméticos eróticos e aulas, uma parte das clientes vai à loja apenas para conversar. “É comum ouvir histórias de mulheres que nunca tiveram um orgasmo ou que revelam a traição do marido”, afirma Luciana, que é formada em psicologia. “Às vezes também fazemos um trabalho de aconselhamento”.

Inspirada numa reportagem da revista Nova, Luciana montou uma cesta de produtos eróticos para presenteá-lo. Começou a procurar coisas como anéis penianos, algemas, lingeries e gels em sex shops – até que um dia foi parar na Constantine. “Achei a loja linda, uma proposta muito diferentes dos outros”, diz a empresária. “O mercado de produtos eróticos tem lojas sujas e feias, nas quais as caixas dos produtos vivem cobertas de poeira”. Ao sair de lá, decidiu: iria montar um sex shop mais agradável e acolhedor. Passou a acompanhar os classificados do jornal atrás de oportunidades, até o dia em que viu um anúncio de uma butique erótica. “Pensei que era um pulgueiro, mas resolvi ligar mesmo assim”, afirma Luciana. “Mas quando a pessoa atendeu o telefone ela disse ‘Constantine’”. Decidiu na hora que compraria a loja que tanto gostara.

As negociações evoluíram rapidamente. Na hora de assinar o contrato, no entanto, um dos sócios mudou de ideia. Ele achava que a família não deveria se desfazer da loja. A notícia foi um banho de água fria. Luciana decidiu abandonar os planos de abrir o próprio negócio. Um ano depois, recebeu uma ligação: a família decidira vender o negócio. “Pensei durante dois meses na proposta e resolvi aceitar”, afirma Luciana. “Decidi pedir demissão e assumi a loja no dia 01 de fevereiro de 2008”. O início tranquilo deu lugar para um período estressante. A empresária se viu obrigada a trabalhar muito para compensar a falta de experiência e de conhecimento do mercado. Os amigos, festas e viagens deram lugar para longas horas dentro da loja. Deu resultado: a empresária não revela o faturamento da loja, mas em 2010 as vendas aumentaram 28% em relação ao ano anterior. Se Luciana se arrepende da mudança? “De forma nenhuma, realizei um sonho”.
Fonte: IG